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Terra tão calma

Demorei-me um pouco por ali, sob o sereno céu, a olhar as mariposas que esvoaçavam entre as urzes e as campânulas, e a ouvir o vento suave a soprar na relva, e pensando sempre que ninguém poderia atribuir um sono agitado aos habitantes daquela terra tão calma”

. Emily Brönte in O Morro dos Ventos Uivantes .

Roubei daqui

Pequenos trechos do livro que eu nunca escrevi

Ela tem medo de escuro”. Ele achou que tinha dito, mas a voz não saía. Era só um pensamento, um pensamento solitário. Talvez a única frase com nexo que tenha conseguido formular naquele dia. Tentou falar de novo: “ela tem medo de escuro”. Talvez se gritasse, se berrasse, conseguiria. “Ela tem medo de escuro!” e, finalmente, ouviu a sua voz. Mas só um fiapo, um murmúrio, uma oração. Repetiu mais uma vez, duas, três. Talvez ainda não tivesse conseguido falar, talvez fosse ficar mudo definitivamente, porque apesar de seus avisos, de suas súplicas repetidas, eles continuaram, sem pestanejar. Trancafiaram-na lá dentro e agora ele estava ali. Impotente, covarde, um mero espectador assistindo o corpo de alguém ser sepultado. Não era nem uma cova rasa. Era só uma gaveta, uma gaveta de cimento escura e sombria, o melhor que ele pôde pagar”

. Marcele Fernandes .

Fragmento 233

… a tristeza solene que habita em todas as coisas grandes ─ nos píncaros como nas grandes vidas, nas noites profundas como nos poemas eternos”

. Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego .

E mais amor…

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor”

. Carlos Drummond de Andrade .

Pensamentos

Peguei emprestado daqui

Nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos - sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes”

. Friedrich Nietzsche .

Umas coisas antigas

─ Sim, é isso. Nós chamavamos os inimigos de “cascos” ─ uma coisa do estábulo. Temia que, se eles entrassem no museu, pisoteariam tudo, procurando ouro, e destruiriam coisas cujo valor eram ignorantes demais para sequer imaginar. Fui à delegacia. A maior parte da polícia tinha saído para defender a cidade da melhor maneira possível. O oficial de plantão perguntou: “Quem vai arriscar a cabeça só pra salvar umas coisas antigas?“. Mas quando percebeu que eu arriscaria, sozinho, ele chamou dois “voluntários” para me ajudar. Disse que não podia deixar as pessoas dizerem que um bibliotecário empoeirado tinha mais coragem que a polícia. {…}
─ E, por fim, tentei encontrar a Hagadá - ele disse.
Na década de 1950, um funcionário do museu  fora implicado em uma trama para roubar a Hagadá, por isso, desde então, o diretor do museu era o único que sabia a combinação do cofre onde o livro era guardado. Mas o diretor morava do outro lado do rio, onde a guerra era mais intensa. Ozren (o bibliotecário) sabia que ele nunca chegaria ao museu.
Ozren continuou falando baixinho, usando frases curtas, sem o menor tom de drama. Luz cortada. Um cano rompido e água jorrando. Granadas atingindo as paredes. Enquanto ele falava, eu tinha que preencher as lacunas nas frases. Já estive em muitos porões de museus para imaginar como era; como cada granada que atingia o prédio devia provocar uma chuva de reboque que caía sobre os objetos preciosos, e sobre ele também, entrando-lhe nos olhos, enquanto ele se agachava no escuro, com as mãos tremendo, acendento um fósforo atrás de outro para ver aonde estava indo. Aguardando uma pausa no bomboradeio para ouvir o som correto enquanto tentava toda combinação possível, uma atrás da outra. E não conseguindo ouvir nada, enfim, porque o sangue pulsando na cabeça era ruidoso demais.
─ Como é que você conseguiu abrir afinal?
Ele ergueu as mãos, virando as palmas para cima.
─ Era um cofre velho, não muito sofisticado ─ disse.
─ Mesmo assim…
─ Como eu lhe disse, não sou um homem religioso, mas se acreditasse em milagres… o fato de eu pegar esse livro, naquelas condições…
─ O milagre ─ falei ─ foi que você…
Ele não me deixou terminar.
─ Por favor ─ interrompeu-me contorcendo o rosto, irritado. ─ Não me veja como herói. Não me sinto assim. Francamente, eu me sinto péssimo, por causa de todos os livros que não consegui salvar. ─ Ele desviou o olhar.
Acho que foi isso que me pegou, aquele olhar. Aquela reticência. Talvez por eu ser o oposto de corajosa, sempre tive certas suspeitas dos heróis. Sou inclinada a pensar que eles não têm imaginação; do contrário, não poderiam fazer as coisas loucas que fazem. Mas aquele era um homem que arriscava a vida por causa de livros perdidos, e do qual você tinha que arrancar informações a saca-rolha para saber o que ele tinha feito. Eu começava a gostar dele, e bastante.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro

Notícia recebida de Cieide por e-mail

Por Laura Zigaurre

Tudo começou escrevendo microcontos numa oficina literária do Marcelino Freire. Logo veio a idéia do título e na seqüência o formato. Publicitário no horário comercial e escritor nas horas extras, Samir Mesquita criou um livreto de microcontos [com até 50 letras cada] que vem dentro de uma caixinha de fósforos. Todos os livrinhos têm a mão do autor, já que é ele mesmo quem tira os palitos, cola os novos rótulos e faz os pacotinhos que são vendidos em alguns pontos estratégicos como Mercearia S. Pedro e galeria B_arco. Eis aqui uma outra utilidade para a caixinha de fósforos, além de acompanhar o samba, claro!

Fonte: B.coolt

O animal

Roubei  daqui

- Porra! - gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no báu, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
- Onde está? - perguntou alarmada.
- O quê?
- O animal! - esclareceu Amaranta.
Ursula pôs o dedo no coração.
- Aqui - disse”

. Gabriel Garcia Márquez in Cem Anos De Solidão .

Também

Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”

. José Saramago in Ensaio sobre a Cegueira .

O Livro Bem Escrito

Que ridículo e mesmo estúpido dizer-se de um livro que está bem escrito. Não é «bem escrito» que está. Está é sentido originalmente, original nas observações, inteligente na reflexão. É por isso que não se pode imitar. Pode-se é ser original de outra maneira. Há realmente livros que são apenas «bem escritos». São os livros banais, com palavras trabalhadas ao torno, frases que se pretendem «despojadas», reduzidas ao «essencial», e cruas. Mas como o que nelas está não representa um sentir originário, nem uma observação imprevista, nem uma reflexão que nos surpreenda pela justeza e profundidade, o que delas resulta é uma construção pretensiosa, estéril e quase sempre irritante. Decerto um romance (como a poesia segundo Mallarmé e como creio já ter dito), faz-se com palavras. Pois com que é que havia de fazer-se? Mas antes disso faz-se com o impulso animador a essas palavras e que assim não passa bem por elas mas por entre elas, fazendo delas apenas um apoio para passar além, como o som passa pelas cordas mas existe por entre elas e é nesse som o indizível que nos emociona. O que nos fica de um livro «bem escrito» é essa emoção que já não lembra as palavras e vive por si.

Eis porque tal livro é inimitável e apenas poderá repetir-se, ou seja plagiar-se. Imitar verdadeiramente esse livro é recompor uma emoção afim e inventar outras palavras que traduzam esse sentir, ou seja que lhe sirvam de pretexto ou estratagema para que esse sentir (e pensar/sentir) se realize como a música nas cordas de um instrumento. O escritor medíocre imagina que todo o seu trabalho deve incindir no trabalhar uma frase. Ora não é a frase que tem de se trabalhar: é aquilo que há-de passar por ela. Os autores célebres que trabalharam a frase, na realidade trabalharam apenas aquilo que haviam de exprimir; testaram na frase a realização de uma expressão. O escritor medíocre dá como já adquirido o que haveria a dizer e todo o seu esforço é secar o período, burilar ou envernizar o vocábulo. E no fim de contas, este é que «escreve bem». Mas quem assim escreve bem, escreve bastante mal. Não digo rasamente que o «conteúdo» preceda a sua «expressão». Mas o que preexiste à expressão não é um puro nada. Exprimir é operar e concretizar esse algo. Mas esse algo existe. Escrever bem, como se diz, é realizar pela escrita um «bem» que aí se revela mas que está antes e depois disso em que se revela. Escreve-se bem com o espírito e a sensibilidade - não com um dicionário. Embora seja no dicionário que está toda a obra-prima. Como na pedra está toda a melhor escultura.

Vergílio Ferreira in ‘Conta-Corrente 4′

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